Sobrevivemos a mais um fim do
mundo e nos aproximamos de mais um ano- novo, com todas as festas e
celebrações, esquecendo então a apreensão e, porque não dizer, expectativa, que
vivíamos em relação ao fim do mundo pretensamente
previsto pelos maias para 21 de dezembro
de 2012 e incorporado pela nossa cultura. Nossa ânsia pela destruição
foi frustrada e talvez seja fácil compreender esse desejo quando olhamos para a
situação caótica que nossa sociedade vive. As pessoas estão sem esperanças,
ansiosas por uma resposta satisfatória para todos os males que afligem as
nossas vidas, então aqueles que acreditam em deuses esperam pelo dia em que
serão julgados e libertados dos seus inúmeros pecados. E aqueles que não
acreditam em uma vida após a morte, que acham que o mundo real a única maneira
de ser feliz, não vislumbram possibilidades e também buscam por fim a essa
realidade onde toda a riqueza material e os excessos que experimentamos não são
suficientes para acabar com a miséria humana, o vazio das almas, o egoísmo, desigualdade
social, a falta de compreensão, tolerância à diversidade e solidariedade. No limite, ambas as posturas são consequência
de uma mesma característica de nosso comportamento, característica essa que se
exacerba cada vez mais: a incapacidade dos seres humanos de se reconhecerem
enquanto responsáveis pelos seus atos e pela sua própria vida; falta de vontade
de analisarmos as consequência daquilo que fazemos e mudarmos nossos
comportamentos para construirmos uma vida em sociedade de acordo com aquilo que
almejamos.
Não
é a sociedade um conjunto de indivíduos vivendo segundo regras e padrões de
comportamentos comuns a todos? E essas regras e padrões não são criados e redefinidos
segundo as vontades e experiências coletivas, de acordo com a história de cada
grupo? Portanto, o caos em que vivemos não é nada mais do que a soma dos erros do
passado e presente, materializados em nossa realidade em forma de leis
jurídicas, regras morais, conjuntos religiosos, formas e maneiras que o
indivíduo acha correto pensar e agir. Em outras palavras, quando olhamos para
os jornais e nos indignamos com os atos hediondos contra outros seres humanos,
contra os animais, contra o planeta, e quando percebemos que esses atos se tornaram
forma comum de agir, estamos nos indignando com aquilo que o próprio ser humano
construiu ao longo de uma história repleta de contradições. Não estou dizendo com isso que as
barbaridades que vemos no mundo atual representam a essência do comportamento
humano em grupo, ou a maneira inevitável de vivermos em sociedade, mas que
somos responsáveis pelo que está acontecendo agora, e se queremos um novo
mundo, uma nova sociedade, novos valores e maneiras de se comportar, nós
devemos buscá-los e construí-los. Todos nós.
Porque
é comum ouvir as pessoas dizerem que estão descontentes com a situação em que
vivemos. É comum ouvir as pessoas reclamaram das suas condições de vida, da
violência que reina no país e no mundo, dos seus empregos, do conteúdo dos programas
de televisão e do comportamento inadequado dos outros. É mais comum ainda ouvir
as pessoas dizerem que as autoridades não fazem nada para resolver os problemas
sociais, que os políticos são corruptos, que os grandes grupos econômicos fazem
o que querem com a nossa economia e mandam nos meios de comunicação. O que é
incomum é as pessoas se darem conta que esses políticos, autoridades, grandes
grupos econômicos e de comunicação são compostos por pessoas que vivem em uma
sociedade e tem o seu poder baseado em toda a organização social da qual nós
fazemos parte. Sustentam-se naquelas leis jurídicas, regras morais, conjuntos
religiosos, formas e maneiras de ação e pensamento com a qual nós consentimos e
validamos, tácita ou expressamente.
Quando
nos depararmos com uma situação que nos incomoda, devemos nos perguntar o que
aconteceu para que esse fato ocorresse e o que podemos fazer para evitarmos que
isso aconteça no futuro. Mais ainda, como podemos evitar agravar uma situação
que não queremos. Pois não adianta nada reclamarmos da situação geral quando, nas situações
particulares agimos com insensatez e comodismo. O funcionário público ou
policial que reclama dos seus baixos salários, mas não desempenha sua função
com licitude e aceita dinheiro para agilizar um processo ou liberar um cidadão
de uma multa, está sendo insensato e acomodado, assim como o cidadão que se
submete a esse jogo e concorda em pagar a ao invés de arcar com as
consequências dos seus atos ou denunciar o ocorrido. O professor que reclama das suas condições de
trabalho e da violência, mas, além de não se unir com a sua classe para lutar
por melhores condições de trabalho, trata com agressividade seus alunos e não
lhes ensina valores importantes, tentando despertar-lhes um pensamento crítico,
está sendo insensato e acomodado, bem como o aluno que não se dedica aos
estudos e não valoriza o conhecimento como forma de superar a dominação
econômica, social e cultural. O bancário que condiciona a liberação de um
financiamento à contratação de outros produtos como seguros de vida está sendo
insensato e acomodado, bem como cliente que não vai atrás dos seus direitos de
consumidor, pois todos sabem que isso é ilegal. A mulher de 20 anos que vive em
uma favela e tem quatro filhos sem ter condições de cria-los, mas culpa o
governo pela sua condição social está sendo insensata e acomodada, bem como o
pai que vê seus filhos seguirem caminhos da promiscuidade e criminalidade que
lhes trarão consequências indesejáveis e não faz nada, isso quando não incentiva
esses comportamentos. Quando você toma atitudes tipo, você está consentindo
expressamente com esses valores deturpados e impossibilitando construção de
novas regras, valores e modos de comportamento. Quando você vivencia essas
situações e se incomoda, mas não fala nada para os outros e não faz nada para
evitá-las, está consentindo tacitamente. E essa enormidade de insensatezes e comodismos
nos faz construir uma sociedade com regras e padrões de comportamentos que nos levaram a desejar o fim
do mundo. Passamos por 2000, passamos por 2001, passamos por 20012. Será que
passaremos pelos próximos? E, podemos ver com toda clareza que, apesar de o
mundo não acabar, a sociedade se aproxima cada vez mais de um abismo
intransponível.
Tendo isto em vista, o mundo não
acabou, mas porque não decretamos o fim do mudo que não queremos? Os Maias
acreditavam em um calendário composto de vários ciclos, maiores e menores, e em
21 de dezembro, o maior ciclo do calendário maia chegou ao fim, e se iniciou um
novo Baktun(período equivalente a 144 mil dias), mas nunca foi colocado que não
viria um novo ciclo. Portanto acredito que está na hora de encararmos que somos
nós os responsáveis pelo mundo em que vivemos, para realmente não termos que
encararmos uma situação insustentável, na qual a sociedade como a conhecemos
realmente tenha um fim terrível.
Que
o fim do décimo terceiro Baktun e início do décimo quarto represente o recomeço
da nossa civilização. Que, passada a apreensão com o 21 de dezembro de 2012 e
chegada a euforia do dia 31, possamos comemorar, mas com a alegria daqueles que
sabem que algo melhor virá. E isso só acontecerá se assumirmos nossas
imperfeições e nos mostrarmos dispostos a mudar, e com essas mudanças,
espalharmos a capacidade de autoavaliação e autoresponsabilização. Para aqueles
que buscam seus valores nas religiões, a maioria das crenças coloca o livre
arbítrio como algo proporcionado pelo Criador, o que faz com que a opção pelo
bem ou pelo mal seja responsabilidade dos próprios fiéis, então não cabe aqui
esperar que uma entidade superior corrija os problemas terrenos. Para aqueles
que constroem seus valores livremente, perceber a responsabilidade individual
na construção das relações sociais e optar por agir e adotar valores que sejam
benéficos a todos é ainda mais fácil.
Enfim,
vamos celebrar, amar, nos divertir na virada do ano, pois ainda estamos aqui, e
podemos construir um mundo melhor, pois o fim não chegou. Se você quer um mundo
cheio, de paz, amor, diversão, união, igualdade, honestidade, tolerante, sem
violência e corrupção, não saia desejando isso para todos, mas haja de acordo
com essas ideias para que seus atos tenham como consequência aquilo que você
deseja. E ao beber com seus amigos até a
madrugada, pense bem antes de pegar o carro, pois isso seria uma atitude
insensata, e se for parado em uma blitz,
assuma a responsabilidade, pois tentar se safar dessa atitude que poderia
causar mortes seria uma atitude acomodada. Antes de acender um baseado para
relaxar depois da ceia ou usar alguma droga na balada em Copacabana, pense em
todas as crianças que morreram vítimas da violência no morro logo ao lado ou na
possibilidade de ao menos discutir a legalização das drogas, porque não pensar
seria insensatez, e culpar os policiais que o mataram ou a desigualdade social
que “as empurrou” para o tráfico seria acomodação. Antes de remoer o passado causar confusão na celebração com sua
família, pensa se isso vale a pena ou não é melhor deixar pra lá. Antes de
gritar com a sua esposa frente do seu filho, pense no exemplo que você está
dando e se ele não irá reproduzir esse padrão violento de comportamento futuramente.
O ano novo se aproxima, vamos então recomeçar, festejar uma nova era, uma nova vida, uma nova sociedade, na qual cada um cumpre o seu papel, assume as consequências dos seus atos, abandona o egoísmo, a
vaidade, o consumismo desenfreado e luta por um mundo melhor não apenas para
ele, mas para todos. Pois só assim teremos um ano realmente novo e no próximo
fim de mundo fabricado pela conveniência de uma cultura falida, as pessoas
terão motivos suficientes para rejeitar a ideologia da destruição.
