quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Crônica sobre o recomeço do mundo


Sobrevivemos a mais um fim do mundo e nos aproximamos de mais um ano- novo, com todas as festas e celebrações, esquecendo então a apreensão e, porque não dizer, expectativa, que vivíamos  em relação ao fim do mundo pretensamente previsto pelos maias para 21 de dezembro  de 2012 e incorporado pela nossa cultura. Nossa ânsia pela destruição foi frustrada e talvez seja fácil compreender esse desejo quando olhamos para a situação caótica que nossa sociedade vive. As pessoas estão sem esperanças, ansiosas por uma resposta satisfatória para todos os males que afligem as nossas vidas, então aqueles que acreditam em deuses esperam pelo dia em que serão julgados e libertados dos seus inúmeros pecados. E aqueles que não acreditam em uma vida após a morte, que acham que o mundo real a única maneira de ser feliz, não vislumbram possibilidades e também buscam por fim a essa realidade onde toda a riqueza material e os excessos que experimentamos não são suficientes para acabar com a miséria humana, o vazio das almas, o egoísmo, desigualdade social, a falta de compreensão, tolerância à diversidade e solidariedade.  No limite, ambas as posturas são consequência de uma mesma característica de nosso comportamento, característica essa que se exacerba cada vez mais: a incapacidade dos seres humanos de se reconhecerem enquanto responsáveis pelos seus atos e pela sua própria vida; falta de vontade de analisarmos as consequência daquilo que fazemos e mudarmos nossos comportamentos para construirmos uma vida em sociedade de acordo com aquilo que almejamos.
                Não é a sociedade um conjunto de indivíduos vivendo segundo regras e padrões de comportamentos comuns a todos? E essas regras e padrões não são criados e redefinidos segundo as vontades e experiências coletivas, de acordo com a história de cada grupo? Portanto, o caos em que vivemos não é nada mais do que a soma dos erros do passado e presente, materializados em nossa realidade em forma de leis jurídicas, regras morais, conjuntos religiosos, formas e maneiras que o indivíduo acha correto pensar e agir. Em outras palavras, quando olhamos para os jornais e nos indignamos com os atos hediondos contra outros seres humanos, contra os animais, contra o planeta, e quando percebemos que esses atos se tornaram forma comum de agir, estamos nos indignando com aquilo que o próprio ser humano construiu ao longo de uma história repleta de contradições.  Não estou dizendo com isso que as barbaridades que vemos no mundo atual representam a essência do comportamento humano em grupo, ou a maneira inevitável de vivermos em sociedade, mas que somos responsáveis pelo que está acontecendo agora, e se queremos um novo mundo, uma nova sociedade, novos valores e maneiras de se comportar, nós devemos buscá-los e construí-los. Todos nós.
                Porque é comum ouvir as pessoas dizerem que estão descontentes com a situação em que vivemos. É comum ouvir as pessoas reclamaram das suas condições de vida, da violência que reina no país e no mundo, dos seus empregos, do conteúdo dos programas de televisão e do comportamento inadequado dos outros. É mais comum ainda ouvir as pessoas dizerem que as autoridades não fazem nada para resolver os problemas sociais, que os políticos são corruptos, que os grandes grupos econômicos fazem o que querem com a nossa economia e mandam nos meios de comunicação. O que é incomum é as pessoas se darem conta que esses políticos, autoridades, grandes grupos econômicos e de comunicação são compostos por pessoas que vivem em uma sociedade e tem o seu poder baseado em toda a organização social da qual nós fazemos parte. Sustentam-se naquelas leis jurídicas, regras morais, conjuntos religiosos, formas e maneiras de ação e pensamento com a qual nós consentimos e validamos, tácita ou expressamente.
                Quando nos depararmos com uma situação que nos incomoda, devemos nos perguntar o que aconteceu para que esse fato ocorresse e o que podemos fazer para evitarmos que isso aconteça no futuro. Mais ainda, como podemos evitar agravar uma situação que não queremos. Pois não adianta nada reclamarmos  da situação geral quando, nas situações particulares agimos com insensatez e comodismo. O funcionário público ou policial que reclama dos seus baixos salários, mas não desempenha sua função com licitude e aceita dinheiro para agilizar um processo ou liberar um cidadão de uma multa, está sendo insensato e acomodado, assim como o cidadão que se submete a esse jogo e concorda em pagar a ao invés de arcar com as consequências dos seus atos ou denunciar o ocorrido.  O professor que reclama das suas condições de trabalho e da violência, mas, além de não se unir com a sua classe para lutar por melhores condições de trabalho, trata com agressividade seus alunos e não lhes ensina valores importantes, tentando despertar-lhes um pensamento crítico, está sendo insensato e acomodado, bem como o aluno que não se dedica aos estudos e não valoriza o conhecimento como forma de superar a dominação econômica, social e cultural. O bancário que condiciona a liberação de um financiamento à contratação de outros produtos como seguros de vida está sendo insensato e acomodado, bem como cliente que não vai atrás dos seus direitos de consumidor, pois todos sabem que isso é ilegal. A mulher de 20 anos que vive em uma favela e tem quatro filhos sem ter condições de cria-los, mas culpa o governo pela sua condição social está sendo insensata e acomodada, bem como o pai que vê seus filhos seguirem caminhos da promiscuidade e criminalidade que lhes trarão consequências indesejáveis e não faz nada, isso quando não incentiva esses comportamentos. Quando você toma atitudes tipo, você está consentindo expressamente com esses valores deturpados e impossibilitando construção de novas regras, valores e modos de comportamento. Quando você vivencia essas situações e se incomoda, mas não fala nada para os outros e não faz nada para evitá-las, está consentindo tacitamente.  E essa enormidade de insensatezes e comodismos nos faz construir uma sociedade com regras e padrões de  comportamentos que nos levaram a desejar o fim do mundo. Passamos por 2000, passamos por 2001, passamos por 20012. Será que passaremos pelos próximos? E, podemos ver com toda clareza que, apesar de o mundo não acabar, a sociedade se aproxima cada vez mais de um abismo intransponível.
                                Tendo isto em vista, o mundo não acabou, mas porque não decretamos o fim do mudo que não queremos? Os Maias acreditavam em um calendário composto de vários ciclos, maiores e menores, e em 21 de dezembro, o maior ciclo do calendário maia chegou ao fim, e se iniciou um novo Baktun(período equivalente a 144 mil dias), mas nunca foi colocado que não viria um novo ciclo. Portanto acredito que está na hora de encararmos que somos nós os responsáveis pelo mundo em que vivemos, para realmente não termos que encararmos uma situação insustentável, na qual a sociedade como a conhecemos realmente tenha um fim terrível.
                Que o fim do décimo terceiro Baktun e início do décimo quarto represente o recomeço da nossa civilização. Que, passada a apreensão com o 21 de dezembro de 2012 e chegada a euforia do dia 31, possamos comemorar, mas com a alegria daqueles que sabem que algo melhor virá. E isso só acontecerá se assumirmos nossas imperfeições e nos mostrarmos dispostos a mudar, e com essas mudanças, espalharmos a capacidade de autoavaliação e autoresponsabilização. Para aqueles que buscam seus valores nas religiões, a maioria das crenças coloca o livre arbítrio como algo proporcionado pelo Criador, o que faz com que a opção pelo bem ou pelo mal seja responsabilidade dos próprios fiéis, então não cabe aqui esperar que uma entidade superior corrija os problemas terrenos. Para aqueles que constroem seus valores livremente, perceber a responsabilidade individual na construção das relações sociais e optar por agir e adotar valores que sejam benéficos a todos é ainda mais fácil.
                Enfim, vamos celebrar, amar, nos divertir na virada do ano, pois ainda estamos aqui, e podemos construir um mundo melhor, pois o fim não chegou. Se você quer um mundo cheio, de paz, amor, diversão, união, igualdade, honestidade, tolerante, sem violência e corrupção, não saia desejando isso para todos, mas haja de acordo com essas ideias para que seus atos tenham como consequência aquilo que você deseja.  E ao beber com seus amigos até a madrugada, pense bem antes de pegar o carro, pois isso seria uma atitude insensata,  e se for parado em uma blitz, assuma a responsabilidade, pois tentar se safar dessa atitude que poderia causar mortes seria uma atitude acomodada. Antes de acender um baseado para relaxar depois da ceia ou usar alguma droga na balada em Copacabana, pense em todas as crianças que morreram vítimas da violência no morro logo ao lado ou na possibilidade de ao menos discutir a legalização das drogas, porque não pensar seria insensatez, e culpar os policiais que o mataram ou a desigualdade social que “as empurrou” para o tráfico seria acomodação. Antes de remoer o passado  causar confusão na celebração com sua família, pensa se isso vale a pena ou não é melhor deixar pra lá. Antes de gritar com a sua esposa frente do seu filho, pense no exemplo que você está dando e se ele não irá reproduzir esse padrão violento de comportamento futuramente. 
               O ano novo se aproxima, vamos então recomeçar, festejar uma nova era, uma nova vida, uma nova sociedade, na qual cada um cumpre o seu papel, assume as consequências dos seus atos, abandona o egoísmo, a vaidade, o consumismo desenfreado e luta por um mundo melhor não apenas para ele, mas para todos. Pois só assim teremos um ano realmente novo e no próximo fim de mundo fabricado pela conveniência de uma cultura falida, as pessoas terão motivos suficientes para rejeitar a ideologia da destruição.